DE SÃO ROQUE PARA O MUNDO: LEGADO DE DARCY PENTEADO COMPLETA 100 ANOS EM 2026

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CONHEÇA A INCRÍVEL HISTÓRIA DO MULTIARTISTA LOCAL DE GRANDE PROJEÇÃO

Nascido em São Roque (SP) em 1926, foi um importante cenógrafo, figurinista e pioneiro na militância LGBT no Brasil. Este ano completaria 100 anos, mas seu legado continua mais vivo do que nunca. 

Ele gostava de se definir como “pintor de paisagens e um caipira autêntico”, mas fez história como um multiartista inquieto, contestador, criativo e um dos nomes fundamentais da cultura produzida no interior paulista e reconhecido nacional e internacionalmente.

Darcy Penteado de Campos nasceu em 1926, em São Roque, onde viveu até os 10 anos, na região da Igreja Matriz. Foi nesse ambiente interiorano, marcado pela convivência próxima e pela observação do cotidiano, que começou a construir seu olhar artístico — sensível, atento e profundamente humano.

Ainda criança, autodidata e criativo, Darcy já percorria as escolas da cidade com um teatro de fantoches e marionetes, criado por ele e seus irmãos, antecipando uma trajetória marcada pela experimentação e pelo diálogo entre linguagens.

Da infância criativa à formação artística

Aos 10 anos, Darcy mudou-se para a capital paulista para concluir os estudos. São Paulo ampliou seus horizontes, mas suas origens jamais deixaram de atravessar sua obra.

Sua estreia profissional aconteceu em 1948, como ilustrador. Pouco depois, no início da década de 1950, passou a integrar o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), um dos principais centros de inovação teatral do país. Ali, confeccionou máscaras para a montagem de Antígone, dirigida por Adolfo Celi, consolidando sua atuação também nas artes cênicas.

Em 1951, Darcy ganhou projeção nacional ao ser premiado pelo cartaz da primeira Bienal de São Paulo, marco decisivo para a história da arte moderna brasileira.

Ilustração e diálogo com a literatura

Paralelamente à cenografia, Darcy Penteado desenvolveu uma sólida carreira como ilustrador. Seu traço acompanhou obras de alguns dos maiores escritores brasileiros, entre eles Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Hilda Hilst e Graciliano Ramos.

Mais do que ilustrar textos, Darcy dialogava com eles, criando imagens que ampliavam sentidos e atmosferas literárias.

O artista plástico

Entre as muitas facetas de Darcy Penteado, a de artista plástico ocupa lugar central. Suas obras foram expostas em mostras no Brasil e no exterior, incluindo a Bienal de São Paulo, e lhe renderam importantes prêmios.

Sua pintura revela cenas do cotidiano, paisagens afetivas e figuras humanas envoltas em silêncio, reflexão e memória — sempre atravessadas por uma poética ligada às origens interioranas.

O retratista da elite paulista

Darcy também se destacou como retratista, alcançando reconhecimento entre a elite intelectual e artística de São Paulo. Seus retratos buscavam captar mais do que a aparência física: revelavam caráter, atmosfera e subjetividade.

Entre os trabalhos de maior repercussão estão o retrato de Di Cavalcanti, publicado no Diário de São Paulo, e o de Jovina Duarte, mãe do sociólogo Paulo Duarte, divulgado em 1949 pela revista Artes Plásticas.

Arte popular e carnaval

Entre exposições e projetos gráficos, Darcy levou sua criatividade para o carnaval carioca, colaborando com a organização visual dos desfiles das escolas:

  • Unidos de Vila Isabel
  • Mocidade Independente de Padre Miguel
  • Imperatriz Leopoldinense

 

🌈 | Darcy Penteado e a construção da visibilidade LGBT no Brasil

Muito antes de o debate sobre diversidade ganhar espaço público, Darcy Penteado já atuava de forma decisiva na formação do movimento LGBT brasileiro. Em plena ditadura militar, participou ativamente do jornal O Lampião, um dos primeiros veículos do país dedicados à defesa dos direitos dos homossexuais.

Por meio da escrita, da arte e do pensamento crítico, Darcy ajudou a romper silêncios, enfrentar preconceitos e construir um discurso de afirmação, dignidade e cidadania. Sua atuação foi fundamental para consolidar uma rede de resistência cultural e política que abriria caminhos para as lutas e conquistas das décadas seguintes.

Mais do que um artista, Darcy Penteado foi um intelectual engajado, que compreendeu a cultura como instrumento de transformação social.

Memória, cotidiano e despedida

 

Na década de 1980, em sua última mostra, Darcy voltou-se para suas próprias memórias. As telas passaram a retratar o cotidiano com temas como alegria, solidão, meditação, vida e morte, em um balanço poético de mais de 40 anos dedicados à arte.

Darcy Penteado faleceu em 1987, aos 61 anos. Em testamento, doou parte significativa de sua obra e grande parte de seu acervo pessoal à cidade de São Roque, deixando um legado que ultrapassa o campo artístico e se inscreve na memória cultural do município.

O centenário de nascimento do artista plástico e ativista Darcy Penteado será em 30 de abril de 2026.  O filme “Darcy Faz 100 Anos”, dirigido por Lufe Steffen, lançado no ano passado, celebra a memória do grande multiartista.

Por Marília Heymer 

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